A aprovação de um novo medicamento pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) abre um novo capítulo no tratamento do diabetes tipo 1 no Brasil. O órgão autorizou o uso do teplizumabe, comercializado como Tzield, primeiro tratamento com potencial de retardar a progressão da doença ao atuar diretamente no sistema imunológico antes mesmo do aparecimento dos sintomas.
O medicamento é um anticorpo monoclonal desenvolvido pela farmacêutica Sanofi e administrado por infusão intravenosa ao longo de duas semanas. A terapia é indicada para pacientes a partir dos 8 anos de idade que estejam no chamado estágio 2 do diabetes tipo 1, fase em que já existem alterações nos níveis de glicose no sangue e presença de autoanticorpos, mas ainda não há sintomas clínicos.
O médico nutrólogo e intensivista Dr. José Israel Sanchez Robles explica que o grande diferencial dessa nova abordagem é atuar antes que ocorra a destruição completa das células responsáveis pela produção de insulina no pâncreas.
“O diabetes tipo 1 é uma doença autoimune na qual o próprio organismo passa a atacar as células responsáveis pela produção de insulina. O teplizumabe atua modulando essa resposta do sistema imunológico e pode retardar esse processo de destruição.”, afirma.
Segundo estudos clínicos, o medicamento foi capaz de adiar em cerca de dois anos o aparecimento dos sintomas clássicos da doença, como sede excessiva, aumento da frequência urinária e perda de peso inexplicável. Em muitos casos, também houve redução significativa na necessidade de uso imediato da insulina, tratamento padrão para pacientes diagnosticados.
Para José Israel, essa estratégia preventiva representa uma mudança importante na forma como a doença pode ser tratada no futuro. “Até hoje, o tratamento começava apenas quando o diabetes já estava instalado. Agora temos uma terapia que busca intervir antes mesmo do aparecimento dos sintomas, o que pode significar mais qualidade de vida e menos complicações ao longo do tempo”, afirma o médico.
Apesar do avanço, o médico ressalta que o medicamento não representa uma cura para o diabetes tipo 1. Segundo ele, a doença continua sendo progressiva e complexa, envolvendo múltiplos mecanismos do sistema imunológico. “É fundamental deixar claro que não estamos falando de cura. O medicamento pode retardar a evolução da doença, mas não impede completamente que o diabetes se desenvolva em muitos pacientes”, afirma José Israel.
Outro desafio será o acesso ao tratamento. Nos Estados Unidos, onde o medicamento foi aprovado em 2022, o custo do ciclo terapêutico ultrapassa 200 mil dólares, valor equivalente a cerca de 1 milhão de reais, o que pode limitar sua disponibilidade.
Mesmo com as limitações, especialistas avaliam que a aprovação representa um avanço significativo na luta contra o diabetes tipo 1, doença que afeta principalmente crianças, adolescentes e adultos jovens, e que até hoje depende essencialmente da reposição diária de insulina para controle.






