À medida que as mudanças climáticas ficam mais evidentes, agricultores se esforçam para colher os mesmos volumes que antes e para ter a mesma produtividade no campo. E, num mundo cada vez mais quente, adaptação e inovação aparecem como peças fundamentais para transformar — e manter — a cadeia de suprimentos de alimentos.
“Por mais dolorosa que seja a inflação do preço dos alimentos, ela pode ser apenas o indício de desafios maiores que estão chegando. O trabalho vital da agricultura nos próximos anos será sua reinvenção”, diz a americana especialista em estudos do clima, Eliza Barclay, no artigo “O que comer num planeta em chamas”.
Não existe uma resposta mágica para essa pergunta. Especialistas defendem que é necessário um pacote de intervenções para promover maior harmonia entre clima e agricultura. À primeira vista, a mudança de paradigmas rumo à agricultura regenerativa pode parecer trabalhosa, e os investimentos iniciais afastam produtores.
Mas aqueles que já migraram suas práticas compartilham experiências positivas em fazendas de gado de leite, de corte, produção de queijos, cultivo de café, entre outros. E alguns se uniram no Brasil para promover esse modelo de produção, por meio da Frente Empresarial para Regeneração da Agricultura (FERA).
O veterinário e ex-professor da Esalq-USP, Luis Fernando Laranja, é um deles. Laranja começou a investir no modelo regenerativo há dez anos, com a produção de leite. Sob sua tutela, a fazenda em Itirapina (SP) foi a primeira no Brasil a conquistar certificação de leite carbono neutro, além das certificações em produção orgânica e bem-estar animal.
Há cinco anos, deu início também à produção de gado de corte — operação que hoje acontece em 16 mil hectares, com mais de 6 mil hectares implantados no sistema de modelo silvopastoril, em fazendas em Paranaita (MT), Ananás (TO), São Bento do Tocantins (TO) e Barra (BA).
“Desenvolvemos modelos para produção de gado de corte de forma intensiva, ao mesmo tempo em que pensamos em práticas sustentáveis. O sistema silvopastoril melhora a produtividade e proporciona bem-estar aos animais. Outro benefício é a recuperação do solo, com maior fertilidade e incremento de matéria orgânica”, diz.
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Laranja desenvolveu, junto aos sócios na Caaporã Agrosilvopastoril, modelo para replicar em outras fazendas o sistema de compensação de carbono que implementou na sua. A empresa já atua em propriedades nos Estados de São Paulo, Mato Grosso, Bahia e Tocantins. Ele estima que o custo de implementação dos sistemas regenerativos gira em torno de R$ 8 mil a R$ 10 mil por hectare, mas diz que o resultado chega em torno de três anos. “Definitivamente tem seus desafios, mas sempre foi assim. Estamos aprendendo algo novo, o que é bom para todos”.
Queijo orgânico
Outro participante da Frente é o agrônomo Vinícius Ferreira Soares, que idealizou o programa O Bem Orgânicos, que produz o primeiro e único queijo Canastra orgânico certificado. Ele adotou as práticas agroecológicas e regenerativas de produção a partir de 2019, quando iniciou o programa.
O sítio de Soares fica em Piumhi (MG), na microrregião da Serra da Canastra. São 25 hectares, sendo 11 deles de mata nativa preservada. A produção é artesanal e em pequena escala, com média de 20 quilos de queijo por dia.
Na propriedade, uma nascente que antes estava seca agora se mantém constante, contribuindo para o ribeirão Araras, e mais adiante, para o rio São Francisco. “A diversidade de plantas, microorganismos e pasto também influenciou positivamente o sabor do queijo, enriquecendo o produto final”, afirma.
Outro benefício, segundo ele, é a melhoria do bem-estar do gado de leite graças à sombra das árvores e arbustos. “O solo também apresentou melhoras, com mais matéria orgânica e capacidade de absorção da água”, acrescenta.
Agricultura regenerativa também tem a ver com economia circular. Lucimar Silva, diretora-executiva da Auma Agronegócios, conta que na fazenda de café da empresa, em Patos de Minas (MG), biodigestores produzem toda a energia elétrica para abastecer a propriedade, a partir de resíduos da suinocultura, e produzem combustível para abastecer a frota de carros. Parques de compostagem utilizam resíduos das diversas culturas para produzir fertilizantes.
“Acreditamos muito no potencial do sistema circular como medida de proteção ao meio ambiente. Fazemos também a gestão de recursos hídricos, utilizando plantas de cobertura e gestão de dados em tempo real”, afirma.
A executiva é outra das participantes da frente, que acaba de ser criada para promover práticas como as adotadas pela Auma.
Objetivo
De acordo com Alexandre Mansur, que organiza o projeto junto a oito conselheiros, a proposta da frente é estreitar o elo entre legisladores, cientistas, agricultores e consumidores, a respeito da grande pressão global sobre a produção de alimentos e promover a adoção de sistemas naturais e regenerativos em busca de soluções.
“Acreditamos no potencial de criar uma representatividade para facilitar um diálogo significativo e, ao fazê-lo, estimular ações regionais e nacionais”, afirma ele, que é diretor de projetos do Instituto O Mundo que Queremos.
Os objetivos, segundo Mansur, são promover acesso ao crédito para produtores que estejam dispostos a assumir compromissos com a agricultura regenerativa; buscar soluções para a falta de mão de obra e capacitação técnica e envolver consumidores no debate, para que o valor dos alimentos produzidos nesse sistema seja reconhecido.