O tabaco mata mais de 8 milhões de pessoas por ano e, dessas, mais de 7 milhões resultam do uso direto desse produto, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). É pensando em reduzir esses números que campanhas como o Dia Nacional de Combate ao Fumo, reconhecido nesta sexta-feira (29), são essenciais para conscientizar a população.
Entre a população mais vulnerável aos riscos do tabagismo estão os idosos, principalmente quando o hábito de fumar teve início na juventude. De acordo com Amanda Santoro Fonseca Bacchin, geriatra especialista pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), o tabagismo mantido ao longo da vida está associado a um maior risco de mortalidade precoce, com uma perda média de expectativa de vida entre oito e 10 anos.
“O tabagismo contínuo está fortemente associado ao maior declínio funcional, o que inclui limitações físicas, pior mobilidade, dores musculoesqueléticas e maior prevalência de sintomas depressivos e ansiosos. Além disso, esse comprometimento da função física tende a se acentuar com a idade”, afirma.
A geriatra explica, ainda, que as pessoas que começam a fumar após os 60 anos tendem a apresentar menor carga tabágica em relação aos fumantes de longa data. No entanto, a pessoa idosa pode ser mais vulnerável a infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral, devido à presença de comorbidades e reserva fisiológica reduzida.
Além disso, os idosos têm maior risco de desenvolver alterações vasculares, osteoporose, hipertensão arterial, doença do refluxo gastroesofágico, apneia do sono, diabetes, arritmia, depressão e demência, entre outras complicações relacionadas ao fumo.
Apesar disso, ela ressalta que mesmo aqueles que param de fumar após os 60 anos podem obter benefícios para a saúde.
“Nunca é tarde para cessar o tabagismo; os idosos se beneficiam tanto em termos de redução de mortalidade quanto de melhora funcional e subjetiva. Há melhora progressiva na autoavaliação de saúde e de marcadores laboratoriais, como perfil lipídico, glicemia e função renal, especialmente em idosos com doenças crônicas, com benefícios que se acumulam ao longo dos anos de abstinência”, afirma Bacchin.
Embora o ganho de expectativa de vida seja maior quando a cessação ocorre quando a pessoa é mais jovem, mesmo idosos que param de fumar após 75 anos podem ganhar anos de vida e qualidade de vida, com chances relevantes de evitar eventos adversos graves como infarto e AVC, segundo a especialista.
Por outro lado, os efeitos positivos da cessação do tabagismo podem vir de forma mais lenta em idosos. “Isso acontece porque o envelhecimento está associado a alterações fisiológicas que afetam a farmacocinética e farmacodinâmica, além de maior prevalência de comorbidades, fragilidade e alterações funcionais, fatores que podem influenciar tanto a magnitude quanto a velocidade da resposta terapêutica, exigindo abordagens individualizadas e monitoramento cuidadoso para otimizar os resultados”, completa.
Tratamento para o tabagismo em idosos
De acordo com Bacchin, o tratamento do tabagismo em idosos segue os mesmos princípios das demais faixas etárias, incluindo intervenções farmacológicas (terapia de reposição de nicotina, bupropiona, vareniclina) e abordagens comportamentais.
“Inclusive a literatura demonstra que idosos podem ter taxas de cessação iguais ou superiores às de adultos mais jovens quando recebem intervenções combinadas de aconselhamento e farmacoterapia. A única diferença é que do ponto de vista de segurança, recomenda-se cautela na seleção e ajuste de doses em idosos devido à maior frequência de comorbidades e alterações da função hepática, renal e cardíaca”, afirma.
Segundo a especialista, o início do tratamento deve ser feito sempre com doses mais baixas e monitoramento rigoroso dos demais efeitos adversos.
“Há evidências de que os efeitos neurocognitivos da abstinência, como déficits de memória de trabalho e craving, são menos pronunciados em fumantes com 50 anos ou mais, em comparação com adultos mais jovens, sugerindo uma resposta atenuada à abstinência em idosos. Mas isso não exclui a necessidade de monitoramento cuidadoso, já que fatores como comorbidades e polifarmácia podem também influenciar a experiência clínica da abstinência em idosos”, finaliza.