Reconstruir diariamente o vínculo com as pessoas em situação de rua é a lógica do Consultório na Rua. O programa, criado no âmbito da Política Nacional de Atenção Básica, é executado em Palmas pela equipe multidisciplinar da Unidade de Saúde da Família (USF) Professora Isabel Auler, na Arso 23 (207 Sul). A iniciativa presta atenção integral a esse público mediante ações compartilhadas entre a Secretaria Municipal da Saúde (Semus), pelas redes de atenção psicossocial e de urgência e emergência, e a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (Sedes).
Entre os meses de janeiro e agosto de 2026, a equipe do Consultório na Rua realizou 2.462 procedimentos de saúde à população em situação de rua, média superior a 300 por mês, em atendimentos feitos diretamente em praças, logradouros e locais de permanência dessas pessoas. O volume inclui 682 ações de busca ativa, 535 de redução de danos, 334 orientações individuais em saúde e 42 testes rápidos para HIV, sífilis e hepatites B e C, além de 114 aferições de pressão, 80 visitas domiciliares e institucionais e 65 administrações de medicamentos.
Na manhã da última terça-feira, 1º de setembro, a equipe de reportagem da Semus acompanhou o trabalho de busca ativa pela região Norte e Central de Palmas. Antes de sair, a equipe organiza os equipamentos que vão garantir o atendimento em plena calçada, embaixo de uma árvore ou num terreno baldio. O trabalho não se resume ao atendimento clínico pontual. “Cada abordagem é também uma tentativa de reaproximação, de reconstrução de confiança com pessoas que, muitas vezes, romperam o contato com os serviços de saúde convencionais”, aponta a técnica de enfermagem Silvaci de Araújo Reis.
“Buscamos não só apenas tratar demandas imediatas, mas também identificar casos que precisam de acompanhamento contínuo, encaminhando para a rede de atenção básica ou para serviços especializados quando necessário. O vínculo construído nessas visitas costuma ser o primeiro passo para que essas pessoas voltem a acessar consultas, exames e tratamentos de forma regular”, complementa a médica Giselly Cintra.
Para Giselly, levar o cuidado até onde as pessoas estão é essencial justamente porque parte desse público não consegue chegar aos serviços de saúde, seja pela vergonha da própria condição, seja pela distância física das unidades. “A atenção em saúde no território dá mais dignidade, dá mais qualidade de vida”, resume.
A equipe é formada por profissionais de diferentes áreas: médica, enfermeira, técnica de enfermagem, assistente social e residente em Psicologia; o que permite identificar vulnerabilidades socioeconômicas e articular apoio com outras secretarias, da emissão de documentos ao acesso ao restaurante comunitário. “Fazer saúde no território nada mais é do que dar direito e dignidade, fazer com que a pessoa exerça seu direito de acesso à saúde, já que a saúde é um direito de todos e um dever do Estado”, declara.
Invisibilidade
Um dos principais desafios enfrentados por quem vive nas ruas é o que especialistas chamam de invisibilidade em relação ao SUS, explica a médica Giselly. “Na prática, isso significa que essa população acaba ficando de fora dos serviços tradicionais de saúde, que não foram pensados para lidar com sua rotina, sua falta de endereço fixo, de documentos ou até de roupas e calçados adequados para entrar em um posto de saúde. O resultado é que muitas dessas pessoas simplesmente deixam de buscar atendimento, não por falta de necessidade, mas porque sentem vergonha”, ressalta.
É justamente para reverter esse cenário que equipes como a do Consultório na Rua atuam de forma itinerante, indo até onde essas pessoas estão. A enfermeira Rithielly Ribeiro da Rocha detalha como funciona essa busca ativa semanal. “Vamos direto aos pontos onde os pacientes costumam ficar; quando não os encontramos, passamos a perguntar a outras pessoas em situação de rua se sabem o paradeiro de quem está sendo procurado, até localizá-las”, destaca.
Atendimento
Durante a ronda, a equipe atendeu um paciente realizando curativos em ferimentos nos pés causados por ressecamento e por uma mordida de cachorro. Emocionado, o homem relatou o quanto o acompanhamento da equipe tem sido importante para sua recuperação. “Eles estão me ajudando demais. Se não fossem eles, eu estava enrolado, esse machucado não tinha cicatrizado, não tava bem do jeito que está hoje”, afirmou, completando: “Graças a Deus, em primeiro lugar, e em segundo lugar, a essa equipe médica que vem aqui me cuidar.”
Quanto aos encaminhamentos, a enfermeira explicou que, quando a equipe identifica a necessidade de um especialista, a médica realiza o pedido pelo sistema de regulação, sinalizando a condição de rua do paciente. Depois da autorização, a equipe retorna ao local onde o paciente está para informá-lo sobre data e local da consulta. Nos casos em que a pessoa não tem autonomia para lidar sozinha com esse processo, os profissionais a acompanham até a consulta.
A médica Giselly destaca que parte importante do trabalho é feita sob a lógica da redução de danos. Antes de descrever a abordagem, ela deixou claro que o objetivo não é punir ou julgar quem faz uso de álcool ou outras substâncias. “Nós não trabalhamos na parte punitiva nem julgamos o paciente. Nós trabalhamos para acolher o paciente, explicar para ele que aquilo causa um dano e tentamos trabalhar redução de danos”, afirmou.
Falta de documentação
Além das questões de saúde, a equipe também lida com um obstáculo recorrente: a falta de documentos. Parte da equipe da Semus, a assistente social Alana Rodrigues afirmou que a ausência de documentação não pode ser motivo para negar atendimento em nenhuma unidade de saúde, já que se trata de uma garantia prevista em lei. Ainda assim, sempre que possível, a equipe auxilia os pacientes a regularizar sua situação. “Quando a pessoa é registrada no Tocantins, é mais fácil, porque é mais rápido, busca direto no cartório; agora, quando é registrada em outro estado, aí a Defensoria Pública faz isso”, detalha, acrescentando que muitos casos são enviados para atendimento na Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social.







