As exportações de carne bovina do Brasil para a China ganharam força em maio, somando 157,6 mil toneladas, e mexeram com a programação de alguns frigoríficos neste início de junho. Há relatos de encerramento ou diminuição de abates para produção destinada aos chineses em algumas unidades do país, apurou a reportagem.
O ritmo mais forte dos embarques nos últimos meses já era esperado pelo setor. Os resultados apurados em maio reforçaram a perspectiva de esgotar a cota chinesa, de 1,1 milhão de toneladas em 2026, com as cargas que serão enviadas em junho. Por isso, algumas plantas já pisaram no freio.
A redução na produção pode gerar reflexos nos preços do boi e da carne ao consumidor final, dizem pessoas a par do assunto. Do total embarcado em maio, 153,9 mil toneladas são de carne in natura, que entram na cota. O restante é de miúdos, cortes industrializados, gorduras e tripas.
Uma fonte de um grande frigorífico disse que os abates de boi China, com a produção de cortes específicos destinados ao parceiro asiático, serão encerrados até o fim desta semana na companhia. Outras empresas vão manter as linhas até a semana que vem, afirmou. Algumas plantas habilitadas para exportar aos chineses têm dado férias coletivas aos funcionários diante de incertezas do mercado e em outras haverá paralisação de abates aos sábados para adequar os volumes, relatou.
“Todos estavam esperando por esta semana, mas agora a dúvida é como será daqui para a frente”, disse a fonte, sob reserva. Ela relatou que, com o atual preço da arroba do boi e de venda de carne para o mix de destinos (China, Estados Unidos e Chile), a margem dos frigoríficos apertou. “Vamos dar férias em plantas onde a margem já está zero e não tem sentido produzir”, disse. “Ou o mercado se ajusta ou reduz a produção”, completou.
“[Alguns frigoríficos] estão encerrando as produções de agora até os próximos 15 dias. Acredito que o final da cota será já agora no início de julho”, disse o dono de um frigorífico.
Fernando Iglesias, analista da consultoria Safras & Mercado, confirmou o movimento e disse que o aumento da ociosidade na indústria deve levar ao recuo na arroba do boi no mercado interno.
“Estamos nos últimos dias da cota para a China e o setor está fazendo preparativos para se adequar à realidade de uma menor exportação”, disse à reportagem. “Já há um processo de movimentação dentro das indústrias que estão revisando inclusive os programas de bonificação para o animal padrão China. Nos próximos dias, o Brasil deverá receber o alerta de que 80% da cota foi preenchida e esse será um gatilho importante para que as indústrias parem de produzir para o mercado chinês”, acrescentou.
Os embarques de carne bovina para os chineses ainda são considerados seguros por fontes do setor até a terceira ou quarta semana de junho. Frigoríficos mais distantes dos portos devem encerrar abates de boi China antes de 20 de junho para não correr riscos. A indústria terá uma “virada de chave” e deve priorizar a produção para Chile e Estados Unidos.
Nos cálculos de uma fonte, restariam cerca de 100 mil toneladas para serem embarcadas dentro da cota, sem a aplicação da sobretaxa de 55%. Isso porque a China considerou a entrada de 612,9 mil toneladas de carne bovina brasileira de janeiro a abril, 55,4% do volume autorizado para todo o ano.
Parte das cargas de carne bovina in natura embarcadas em março (102 mil toneladas) e todo volume enviado em abril (135,5 mil toneladas) e maio (153,9 mil) ainda estão em trânsito e serão contabilizadas pela China a partir de junho. Com isso, o espaço a ser preenchido da cota seria de 101,7 mil toneladas, volume que será enviado em junho e chegará ao país asiático até a terceira semana de agosto.
Mas a opinião não é unânime. O executivo de outro frigorífico avaliou que há espaço para embarques até o fim de julho, sem extrapolar a cota e pagar tarifa extra. O dirigente de uma grande companhia avaliou que ainda há segurança para exportar 200 mil toneladas em junho e julho. Nos cálculos dele, a maior parte do volume embarcado em março já teria sido internalizado pela China e abriria essa margem. A viagem de navio dura cerca de 45 dias.
As previsões poderão ser confirmadas no fim deste mês, quando o Ministério do Comércio da China (Mofcom, na sigla em inglês) divulgará novos dados sobre o preenchimento da cota até maio.







