A Universidade Federal do Tocantins (UFT) realizou, na última sexta-feira (29), a cerimônia de outorga do título de Doutora Honoris Causa a Romana Pereira da Silva, conhecida como Dona Romana. A solenidade ocorreu às 15h, no Santuário Dona Romana, localizado na Fazenda Bom Jesus, no município de Natividade (TO), reunindo a comunidade acadêmica e moradores da região para a entrega da principal distinção honorífica da instituição.
A concessão do título foi aprovada por unanimidade pelos órgãos colegiados superiores da UFT, após proposição dos professores Waldecy Rodrigues, Alan Barbiero e Héber Rogério Grácio. A honraria fundamenta-se na atuação de Dona Romana na salvaguarda dos saberes tradicionais, das manifestações culturais e da arte em pedra no Tocantins.
Integração Científica e Cultural
A outorga do título integra as atividades da Escola Internacional de Verão do Futuro Edgar Morin e do Seminário Complexidade, Natureza e Futuro, que ocorre entre os dias 1º e 5 de junho no Câmpus de Palmas. O evento é promovido em parceria com a École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS/Paris) e com o Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília (CDS/UnB), com o objetivo de aproximar o conhecimento científico dos saberes tradicionais.
De acordo com a comissão organizadora do evento, Dona Romana representa a convergência entre diferentes formas de conhecimento, a memória coletiva e a relação sustentável com o território.
Pronunciamentos e Depoimentos
A solenidade no Santuário Dona Romana reuniu a comunidade acadêmica, autoridades locais e moradores da região em um ato que associou os protocolos institucionais às manifestações culturais locais.
Reitoria da UFT
A reitora da UFT, Maria Santana, destacou a relevância de descentralizar os atos acadêmicos e aproximar a instituição das realidades locais e das comunidades tradicionais do estado.
“Para a UFT, este é um momento de conexão entre a universidade e as comunidades. A concessão deste título posiciona a instituição em um espaço do qual ela não pode estar separada. O Tocantins é um estado marcado pela religiosidade, pelas comunidades tradicionais e pelo sentimento de pertencimento. Enquanto mulher preta, considero fundamental validar que Dona Romana agora faz parte da nossa instituição, trazendo ensinamentos sobre saberes tradicionais, espiritualidade e o uso de plantas medicinais. É um momento de integração a A universidade vir até o seu espaço para realizar essa outorga.”
Trajetória
Aos pés de suas criações de pedra, a nova Doutora Honoris Causa recebeu a comitiva institucional com o desapego às formalidades acadêmicas que marca sua trajetória. Ao ser questionada sobre o significado da honraria, Dona Romana afirmou que não tinha conhecimento prévio sobre a existência da titulação e reiterou que seu aprendizado não provém da educação escolarizada formal, mas sim de sua experiência prática e espiritual.
“Eu não sabia nem que existia esse trem. Nunca fui numa escola e eu não sei nada disso. Meu preparo e tudo o que vocês estão vendo aqui é comandado pelos três curadores, quando comecei a trabalhar com chás, garrafadas e, depois, com o desenvolvimento de médiuns. Tudo dessa linha nasceu e foi criado aqui”, explicou.
Nascida e criada na propriedade onde hoje fica o santuário — área que, segundo ela, antigamente era considerada improdutiva por conter muitas pedras —, Dona Romana contextualizou o seu trabalho com uma visão própria sobre a evolução do planeta, mencionando eventos globais como o reflexo de um realinhamento da Terra.
“A minha casa é muito cheia de gente e o povo se acostumou com as minhas brigas, com as minhas alegrias e com tudo. Toda a vida fui uma negrinha desse jeito, fraquinha, nunca tive nada nem quero ter. Para as novas gerações, a perspectiva é de abertura e renovação, porque o Brasil é uma terra escolhida”, concluiu a homenageada.
Comunidade Local
Moradores e frequentadores do santuário acompanharam o evento e ressaltaram o impacto da titulação para o fortalecimento da identidade cultural e o reconhecimento do trabalho comunitário desenvolvido na região. Para Marques Amires Batista da Silva, morador que reside em Natividade desde 2018, a honraria reflete a dedicação de Dona Romana ao acolhimento e à orientação dos cidadãos.
“O título reconhece o trabalho de uma pessoa que orienta e ajuda a todos sem distinção de raça, cor ou condição social, mantendo as portas abertas para a comunidade. Esse reconhecimento da universidade reconhece o aprendizado prático e a contribuição que ela oferece para a vida de quem busca o desenvolvimento pessoal e espiritual”.
A solenidade foi encerrada com a leitura do termo de homenagem oficial. Após o ato formal, o evento deu lugar a um momento de confraternização, no qual os presentes registraram fotografias e interagiram com Dona Romana, que permaneceu no espaço recebendo os cumprimentos dos convidados e da comunidade.












