Com uma carne nutritiva, saborosa e de fácil preparo, a criação de coelhos para corte tem muito espaço para crescer. Atualmente, apenas três frigoríficos no Brasil fazem o abate de coelhos, sendo dois autorizados para comercialização em todo o país e um que pode vender apenas no Estado de Santa Catarina. Além disso, segundo a Associação Científica Brasileira de Cunicultura (ACBC), há inúmeros abatedouros com inspeção de âmbito municipal.
Um dos frigoríficos com autorização para vender a carne de coelho em todo o território nacional é o Coelho Real, sediado em Mairinque (SP). De acordo com Marcos Kac, veterinário e um dos diretores da empresa, há demanda para 1.500 cabeças a mais por mês para abate. “O mercado de carne de coelho está consolidado e vem crescendo a cada ano”, afirma. Sem revelar números de produção, Kac comenta que o aumento no volume de animais abatidos tem sido em torno de 10% a 15% ao ano.
Ainda assim, o empresário pondera que a produção é escassa e não atende a demanda de consumo, concentrada principalmente na região Sudeste do país. Os benefícios da carne de coelho – alto valor energético e baixos teores de colesterol – e a busca dos consumidores por uma alimentação mais saudável, para Kac, garantem o mercado aquecido.
Entretanto, ele aponta como limitações o fator emocional – “as pessoas têm dó do animal” – e o preço final, resultado da produção em menor escala somada a frete e outros custos industriais. Pesquisa em estabelecimentos comerciais na internet aponta que o valor da carne de coelho congelada pode passar de R$ 100 o quilo.
O empresário acredita que um marketing mais efetivo para o produto e mais informação para os produtores rurais se interessarem pela criação estão entre os gargalos da atividade. A Coelho Real compra coelhos vivos, acima de 2,5 quilos, de fornecedores de São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, e paga atualmente R$ 16,50 por quilo.
Cenário e pesquisa
A falta de dados é uma das dificuldades enfrentadas pelo setor. Os últimos dados oficiais são do Censo Agropecuário de 2017, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Naquele ano, o Brasil tinha 200.345 cabeças de coelhos em 16.095 estabelecimentos agropecuários. Desse total, 119.447, ou 59,6% dos animais, estavam na região Sul do país – 58.344 no Rio Grande do Sul, 37.478 em Santa Catarina e 23.625 mil no Paraná.
O professor Leandro Dalcin Castilha, do Departamento de Zootecnia da Universidade Estadual de Maringá (UEM), lidera um grupo de pesquisa da instituição que há dez anos atua com foco na cunicultura. Castilha, que também preside a ACBC, adverte que o setor apresenta várias dificuldades, mas avalia a atividade como “um agronegócio viável”. “É possível desenvolver sistemas produtivos eficientes e sustentáveis na cunicultura, que pode ser rentável”, aponta.
Uma das deficiências encontradas na área, segundo o pesquisador, é que os criadores têm implantado a cunicultura como atividade de transição. “O produtor que tinha avicultura, suinocultura ou produzia bicho da seda, aproveitou o galpão e inseriu coelho”. Ele alerta que esse formato adaptado não é a melhor condição para o negócio. “Na cunicultura, a gente vive uma era artesanal ainda, cada um faz de um jeito. Não é como na avicultura e na suinocultura comercial”, adverte.
Segundo ele, a universidade tem focado em desenvolver e transferir tecnologias para que o cunicultor produza com sustentabilidade e qualidade, com acesso a informações técnicas, além de incentivar parcerias com marcas e indústrias. Castilha já apresentou a carne de coelho para uma cooperativa da região, mas sem sucesso até o momento.
“É um produto que representa uma grande oportunidade, pois aqui temos animais que resultam de 40 anos de melhoramento genético”, ressalta. Integrantes do grupo de pesquisa também levam informações, produtos e subprodutos elaborados com várias partes do animal a eventos, a fim de disseminar a cunicultura.
O professor destaca entre as vantagens da cunicultura a diversidade que a atividade possibilita, com exploração de carne, peles, patas, esterco e filhotes para o mercado pet.







