A morte de Juca de Oliveira, aos 91 anos, neste sábado (21/3), em São Paulo, encerra uma trajetória que foi além da atuação e se entrelaçou com momentos decisivos da história política e cultural do país. Vítima de uma pneumonia, o artista deixa um legado marcado por diversos personagens emblemáticos — como o Doutor Albieri, de O Clone.
Nos anos 1960, em meio ao avanço da Ditadura Militar no Brasil, esteve entre os nomes ligados ao Teatro de Arena, um dos principais polos de produção crítica da época. O espaço se tornou alvo direto da repressão, especialmente após montagens como Eles Não Usam Black-Tie, símbolo da dramaturgia engajada.
Com o endurecimento do regime, o fechamento do teatro e a perseguição a artistas, Juca foi forçado a deixar o Brasil. Ao lado do ator e diretor italiano Gianfrancesco Guarnieri, enfrentou uma longa e improvisada jornada até a Bolívia, passando por diferentes meios de transporte até chegar a Santa Cruz de La Sierra.
Em entrevista a Jô Soares, ele contou que, no país, os dois passaram a dar aulas de teatro em uma universidade, mantendo viva a prática artística mesmo longe do Brasil.
Meses depois, já em La Paz e cogitando seguir para a Europa, decidiu retornar ao Brasil após saber da prisão do pai de Guarnieri. A escolha marcou o fim do exílio e o reencontro com um país ainda sob forte repressão. Sem espaço nos palcos, que permaneciam fechados ou esvaziados, ele encontrou na televisão um novo caminho.
Foi nesse contexto que iniciou sua trajetória na TV Tupi, participando da novela Quando o Amor é Mais Forte.
Ao mesmo tempo, manteve o envolvimento político e sindical. Em 1968, assumiu a presidência do Sindicato dos Atores de São Paulo, onde liderou avanços importantes, como a regulamentação da profissão e a criação de regras que garantiam melhores condições de trabalho, incluindo limites de jornada e prazos mínimos para estudo de texto.
Entre arte e militância, Juca de Oliveira construiu uma carreira que refletiu não apenas o talento de um ator, mas também o compromisso com a cultura e com a defesa da classe artística em um dos períodos mais turbulentos da história brasileira.







