Cientistas da Suécia e da França identificaram um tipo de atividade cerebral ligada à forma como as pessoas reconhecem os limites do próprio corpo. A pesquisa indica que ondas cerebrais alfa ajudam o cérebro a entender o que faz parte de si e o que está fora dele.
Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores analisaram a atividade cerebral de 106 voluntários durante um experimento conhecido como ilusão da mão de borracha.
Nesse teste, a mão real da pessoa é escondida, enquanto uma mão falsa é colocada à sua frente e tocada ao mesmo tempo que a verdadeira, criando a sensação de que a mão de borracha pertence ao corpo.
O estudo foi publicado na revista científica Nature Communications em 12 de janeiro e ajuda a entender melhor como o cérebro constrói a noção de identidade corporal — ou seja, como cada pessoa reconhece o próprio corpo no espaço ao seu redor.
Como o estudo foi feito
Durante os testes, os participantes ficavam com uma das mãos fora do campo de visão, enquanto uma mão falsa era colocada à sua frente. As duas mãos (a real e a de borracha) eram tocadas ao mesmo tempo ou com atrasos pequenos de até 500 milissegundos.
Na segunda etapa, os pesquisadores acompanharam a atividade do cérebro com o uso da eletroencefalografia (EEG), exame que registra os sinais elétricos cerebrais enquanto a pessoa realiza a tarefa.
Papel das ondas cerebrais alfa
Os pesquisadores observaram que a velocidade das ondas cerebrais alfa influencia a forma como as pessoas percebem os toques: quanto mais rápido o cérebro processa essas informações, maior é a capacidade de perceber diferenças de tempo entre o que é visto e o que é sentido.
Essa atividade ocorre no córtex parietal, área do cérebro responsável por construir a noção do próprio corpo e integrar os sentidos, como visão e tato. Por isso, os participantes com ondas alfa mais rápidas identificavam com facilidade quando os toques não aconteciam ao mesmo tempo e tinham mais dificuldade em aceitar a mão falsa como parte do corpo.
Já aqueles com ondas mais lentas confundiam com mais facilidade os estímulos e tendiam a reconhecer a mão de borracha como própria, mesmo quando havia atraso entre os toques. Segundo os autores do estudo, a velocidade dessas ondas ajuda o cérebro a organizar informações sensoriais e a definir os limites do corpo.
Limite do “eu” e o ambiente
Para confirmar os resultados, os cientistas fizeram um terceiro teste usando uma técnica chamada estimulação transcraniana por corrente alternada. O método não é invasivo e aplica uma corrente elétrica fraca no couro cabeludo para acelerar ou diminuir as ondas alfa do cérebro dos participantes.
Em casos em que os toques aconteciam ao mesmo tempo, muitos voluntários diziam sentir que a mão falsa fazia parte do próprio corpo. Já quando acontecia um atraso entre o toque que a pessoa sentia na mão real e o toque que via na mão falsa, essa sensação diminuía aos poucos.
Aplicações no futuro
Segundo os pesquisadores, os resultados ajudam a explicar mudanças na forma como algumas pessoas percebem o próprio corpo, como acontece em casos de esquizofrenia ou entre amputados que ainda sentem membros que não existem mais.
Além disso, o estudo pode ajudar no desenvolvimento de próteses mais próximas da sensação real e de tecnologias de realidade virtual que podem funcionar de forma mais “natural” para o cérebro.






