A 15 dias do início da folia, a Prefeitura de São Paulo divulgou nesta sexta-feira (23) a lista oficial dos blocos de rua do Carnaval 2026. A demora sobre a definição da programação foi alvo de críticas.
A relação de grupos e desfiles foi publicada no Diário Oficial do Município e reúne 630 desfiles programados — entre o pré-carnaval (7 e 8 de fevereiro), os dias principais da festa (14, 15, 16 e 17 de fevereiro) e o pós-carnaval (21 e 22 de fevereiro) — distribuídos por todas as zonas da capital paulista.
A região da Sé, no Centro da cidade, concentra o maior número de desfile, com 157 blocos programados, o equivalente a um quarto do total.
Entre eles, estão nomes tradicionais e de grande público, como Pipoca da Rainha com Daniela Mercury, Meu Santo é Pop, Minhoqueens, Bloco Je Treme Mon Amour, Explode Coração e Domingo Ela Não Vai.
Em segundo lugar, vem o distrito de Pinheiros, na Zona Oeste, com 92 desfiles. Entre os destaques estão o Bloco Casa Comigo e o Bloco do Abrava, do cantor e ator Tiago Abravanel, que, tradicionalmente, atraem multidões em suas saídas.
Segundo a prefeitura, a programação ainda está sujeita a alterações de horários e trajetos.
Críticas
Além de criticar a demora na divulgação Organizadores dos blocos criticavam a demora na organização, cobram diálogo com a prefeitura e questionavam o valor do fomento para o carnaval de rua, que consideram insuficiente.
Eles argumentam que a demora na divulgação da programação oficial dificultou o planejamento e a captação de recursos.
“Se o bloco não sabe se vai sair, não consegue vender cota de apoio nem se organizar financeiramente”, diz José Cury Filho, coordenador do Fórum Aberto dos Blocos de Carnaval de São Paulo, que reúne cerca de 200 agremiações.
Cobrança por mais diálogo
Em setembro do ano passado, a prefeitura publicou um decreto que criou a Comissão Especial de Organização do Carnaval de Rua 2026. Contudo, o grupo é formado apenas por secretarias, órgãos e empresas municipais, sem participação popular ou representação dos blocos.
Para Zé Cury, as decisões da gestão Ricardo Nunes (MDB) são tomadas sem considerar a experiência de quem faz o carnaval de rua acontecer.
Segundo ele, não existe uma interlocução entre a prefeitura e os coletivos de blocos. “O diálogo está absolutamente esquecido. Não há uma autoridade constituída que considere a cultura do carnaval eleita para falar com os coletivos de blocos. O secretário da Cultura [Totó Parente] nunca reuniu os coletivos de blocos para conversar sobre este carnaval”, reforça.
Essa avaliação é reforçada por Thiago França, fundador da Espetacular Charanga do França.
“Estou indo para o meu 11º carnaval, e é a quarta gestão [na prefeitura]. As pessoas vêm e vão. Quem está há dez anos fazendo carnaval sou eu. Quem sabe fazer sou eu, são os blocos que sabem fazer. As gestões são transitórias. Então, sempre as pessoas com mais experiência, que são os fazedores de carnaval, são as pessoas que não são escutadas nesse processo”, diz França.
Para o coordenador do Fórum, o carnaval de rua não vem sendo tratado como movimento cultural. “O carnaval está sendo tratado apenas como entretenimento de massa. Ele não está sendo observado sob a ótica da cultura do carnaval de rua de São Paulo, que é de resiliência e resistência”, afirma.
Thiago França complementa que, embora o impacto econômico seja frequentemente destacado pela gestão pública, o aspecto cultural da festa é negligenciado.
“O faturamento é importante para a prefeitura e para quem não conhece o carnaval, para entender a dimensão. Mas, culturalmente, isso é a nossa identidade. O Brasil é conhecido no mundo inteiro pelo carnaval. E eles estão tentando matar. A gente vai ser conhecido pelo quê? O que define o povo são as tradições, as festas, o nosso modo de viver. E eles estão querendo acabar com isso”, afirma o fundador do Charanga.
A prefeitura afirma manter a Central Permanente do Carnaval, um canal direto de diálogo e orientação, com atendimento presencial, por telefone, WhatsApp e e-mail.
Contudo, segundo Thiago França, o canal não funciona na prática. “Você liga lá e conta os seus problemas. O pessoal diz que vai ver e retornar. E nada é dado sequência. Os blocos não são ouvidos, e a gente tem demandas”, afirma.
Os organizadores também questionam o modelo de fomento municipal, que atende apenas parte dos blocos e é definido muito próximo do carnaval, o que gera disputas e desigualdades. Neste ano, somente 100 blocos foram selecionados para receber apoio financeiro de até R$ 25 mil cada um, totalizando R$ 2,5 milhões em recursos da gestão municipal.
Para os organizadores ouvidos pelo g1, apesar do impacto econômico expressivo e da arrecadação de impostos gerada pela festa, o retorno em políticas públicas para os blocos é considerado extremamente baixo, representando menos de 0,07% do total movimentado.
A organizadora Thais Haliski, do bloco Acadêmicos da Cerca Frango e uma das fundadoras da Comissão Feminina do Carnaval de Rua, relata que os custos para colocar um bloco na rua cresceram de forma exponencial nos últimos anos.
Segundo ela, despesas com caminhão, cordeiros, ensaios em estúdio e estrutura básica podem ultrapassar R$ 60 mil, valor muito superior ao fomento oferecido pela prefeitura. “O recurso não cobre nem metade do custo real”, afirma.
Para viabilizar os desfiles, muitos blocos precisam promover festas pagas e correr atrás de patrocinadores ao longo do ano. De acordo com Thais, essa lógica tem transformado o carnaval em um negócio obrigatório, com impacto direto na identidade dos blocos.
“A cada ano que passa, a gente tem que fazer mais festas, mais dinheiro precisa entrar, que todo mundo coloca do próprio bolso. A gente tem que ir atrás de patrocinador, fazer reunião. Porém, eles exigem contrapartidas que muitas vezes descaracterizam os blocos. Então, em vez de a bateria sair, por exemplo, fantasiada, tem que sair com uma camiseta que obrigatoriamente tenha o logo do patrocinador”, desabafa.
Tanto Thais quanto Cury defendem a criação de uma política pública permanente para o carnaval de rua, com regras claras, planejamento antecipado e participação direta dos blocos nas decisões. Segundo eles, a ausência de uma legislação específica faz com que cada gestão altere o modelo da festa, gerando insegurança e desgaste para quem organiza.
O que diz a prefeitura
“A Prefeitura de São Paulo informa que o cronograma do Carnaval de Rua 2026 segue a programação divulgada desde setembro do ano passado e não há qualquer atraso. Os blocos com mais de 15 mil participantes tiveram até 15 de janeiro para enviar o Plano de Operação e Segurança, que está em fase de validação pelos órgãos competentes, conforme previamente anunciado.
Para garantir a comunicação constante, a Prefeitura mantém a Central Permanente do Carnaval, canal direto de diálogo e orientação, com atendimento presencial, por telefone, WhatsApp e e-mail.
Sobre o fomento, a gestão destaca que R$ 2,5 milhões são destinados a um dos segmentos do Carnaval, uma festa de grande porte que envolve diversas frentes culturais e de organização. O montante permite que até 100 blocos recebam R$ 25 mil cada para a produção, o desenvolvimento e a difusão das atividades do Carnaval de Rua em 2026, sem prejuízo da necessidade de investimentos em outras áreas da programação.”







