Os segmentos de café, carne de aves, etanol e açúcar apresentam o maior potencial de ganho com o acordo de comércio provisório entre Mercosul e União Europeia, na avaliação do BTG Pactual. O acordo prevê eliminar as tarifas de importação de 77% dos produtos agropecuários enviados do Mercosul ao bloco europeu, com redução gradual das tarifas de importação no prazo de 4 a dez anos, dependendo do produto.
Os analistas do BTG Pactual Thiago Duarte e Guilherme Gutilla consideram que várias empresas podem se beneficiar do acordo no longo prazo, embora em escala modesta e em ritmo gradual, à medida que melhorarem as condições de preços e houver ampliação dos mercados.
Eles ponderam em relatório, no entanto, que o acordo ainda precisa ser ratificado, o que abre espaço para ajustes regulatórios. Além disso, o acordo inclui um mecanismo bilateral de salvaguarda agrícola, o que permite à União Europeia suspender tarifas preferenciais temporariamente, por meio de procedimentos mais rápidos, se as importações forem consideradas prejudiciais para os produtores locais.
O banco observa que a União Europeia já é o destino de 15% das exportações brasileiras do agronegócio, com destaque para farelo de soja (50,2%), café (47,1%), etanol (14,6%), milho (7,6%), soja (5,7%), arroz (3,9%), carne bovina (3,5%), açúcar (2,9%), frango (2,2%), algodão (0,4%).
Café
Para o café, não houve definição de cota. As tarifas atuais, de 7,5% para o café torrado e moído e de 9% para o café solúvel, serão eliminadas ao longo de quatro anos. O bloco já é o principal destino do café brasileiro, respondendo por 47% dos embarques de 2025. Portanto, a medida tende a melhorar a competitividade do Brasil na Europa e a sustentar as exportações para o bloco.
Para o diretor-geral do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), Marcos Matos, o acordo pode tornar o produto brasileiro mais competitivo na Europa e pode ainda estimular grupos europeus a investirem mais na indústria de café do Brasil.
Carnes
Os analistas do BTG Pactual consideram positivo a definição de cotas com tarifas reduzidas ou nulas para importação de carnes. “Mas os volumes incrementais são limitados e é improvável que alterem materialmente a dinâmica do setor”, ressaltam.
A maior oportunidade é para o setor avícola. A nova cota livre de tarifas começa em 30 mil toneladas e sobe para 180 mil toneladas em 2031. Isso significa sair de 0,2% da produção total do Mercosul exportada para a UE para 1% até 2031.
O Brasil, como responde por cerca de 90% da produção de frango do bloco, deve ficar com a maior parte da cota. Até 2031, as exportações brasileiras de aves para a UE podem crescer 65%.
Outro fator positivo, apontam os analistas do banco, é que os preços de importação da União Europeia ficam em torno de 60% acima da média dos preços de exportação do Brasil. Para a carne bovina foi estabelecida cota de 16,5 mil toneladas, com tarifa de 7,5%, que aumenta gradativamente para 99 mil toneladas até 2031. Volumes acima desse limite ficam sujeitos a uma tarifa de 12,8%, além de um imposto por peso entre 1,40 euro e 3 euros por quilo, o que resulta em uma tarifa efetiva próxima de 40%.
Embora a nova cota estimule o aumento dos embarques, o volume da cota representa 0,6% da produção do Mercosul prevista para 2031, ante atuais 0,1% exportados para o bloco, o que indica um impacto limitado no setor.
Ainda assim, avaliam os analistas do BTG, o Brasil tende a se beneficiar, considerando que em 2025 o preço pago pela União Europeia pela carne bovina brasileira foi 60% superior ao preço médio da carne brasileira exportada.
Por fim, as exportações brasileiras de carne suína para a UE têm sido historicamente próximas de zero. Mesmo que o Brasil use integralmente a cota de 25 mil toneladas até 2031, a UE representaria 1,4% do total das exportações, o que implica um aumento marginal de 0,25% ao ano, não oferecendo nenhuma oportunidade significativa.
Açúcar e etanol
Para o etanol, foi criada cota de 650 mil toneladas, sendo 450 mil toneladas sem tarifa e 200 mil sujeitas a uma tarifa de 6,4 euros por hectolitro. Esses volumes correspondem a mais de três vezes o que a União Europeia importou do Brasil em 2025. Como as exportações correspondem a cerca de 4% da produção brasileira de etanol, o impacto também será limitado, aponta o BTG.
O acordo mantém a cota de 180 mil toneladas de açúcar e elimina as tarifas de importação nesse volume. Os embarques brasileiros de açúcar para a União Europeia superaram esse limite em 670 mil toneladas em 2025, o que indica um impacto limitado para o setor.
Arroz
O acordo também estabelece uma cota de 60 mil toneladas de arroz livre de tarifa, a ser implantada em seis anos. O volume é quase o dobro do que o Brasil embarcou para o bloco em 2025 e equivale a 7% das exportações totais do país. Os volumes acima da cota pagarão tarifas de 65 euros e 211 euros por tonelada, dependendo do produto.
Grãos
Para grãos, o acordo não trouxe mudanças relevantes. Soja e farelo de soja já entram na União Europeia sem tarifas. As tarifas de óleo de soja vão cair gradualmente para uma faixa entre 3,2% e 9,6%. No caso do milho, a nova cota é de 1 milhão de toneladas livres de tarifa, implementada em seis anos. A cota não deve afetar os volumes brasileiros, pondera o BTG, considerando que as exportações atuais para a UE já superam esse nível em cerca de três vezes.







