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100% brasileira: técnica com pele de tilápia vai além de queimaduras

Com grande elasticidade e rica em colágeno do tipo 1, a pele de tilápia pode funcionar como um curativo biológico para tratar queimaduras

Metrópoles por Metrópoles
14/03/2026
em Saúde
Tempo de leitura: 5 minutos
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Divulgação/Viktor Braga/UFC

Divulgação/Viktor Braga/UFC

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Há 11 anos, uma equipe de pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) descobriu que a utilização da pele da tilápia no tratamento de queimaduras era mais eficaz que outras terapias disponíveis, como cremes e pomadas. A técnica deu certo e ficou famosa: ela já gerou mais de 45 artigos publicados, além de estudos realizados em parceria com o Instituto Butantan, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e até a Nasa.

Segundo o coordenador geral da pesquisa, Edmar Maciel, o ponto de partida veio quando uma equipe de pesquisadores liderada pela professora Ana Paula Negreiros, também da UFC, detectou que a pele do peixe era rica em colágeno do tipo 1. A proteína tem presença abundante na pele humana e é importante para o processo de cicatrização.

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“Durante esses anos de pesquisas, foram desenvolvidos dois produtos principais: a pele da tilápia conservada em glicerol e a pele da tilápia liofilizada”, diz Maciel, que é presidente do Instituto de Apoio ao Queimado.

Ambos produtos servem como curativos para queimaduras e feridas. A pele conservada em glicerol precisa ser mantida sob refrigeração, enquanto a liofilizada não precisa ser resfriada e pode ser armazenada em prateleira. “Isso reduz bastante os custos de produção, armazenamento e transporte”, afirma o pesquisador.

Apesar de ser bastante reconhecida por ajudar no tratamento de queimaduras, a tecnologia derivada da pele de tilápia também pode ter outras aplicações:

Cicatrização de queimaduras 

Com grande elasticidade e rica em colágeno do tipo 1, a pele do animal funciona como um curativo biológico para tratar queimaduras de segundo e terceiro grau.

“A pele da tilápia tem mais colágeno que a humana, permanecendo aderida na queimadura até sua cicatrização, reduzindo a dor e protegendo a lesão de infecções”, destaca a cirurgiã plástica Irene Daher, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).

Em comparação com tratamentos conservadores, a pele de tilápia é mais eficaz e ao mesmo tempo menos dolorosa. O curativo feito com cremes e pomadas precisa ser substituído com mais frequência e lavado por dias, o que causa dor ao paciente.

Já as bandagens biológicas podem permanecer por mais tempo em contato com a pele, diminuindo o número de trocas, trabalho dos médicos e os custos do tratamento. “O curativo com pele de tilápia pode permanecer sobre a queimadura por cinco, seis ou sete dias, e em queimaduras mais superficiais pode permanecer por até 10 dias”, afirma Maciel.

Reconstrução vaginal e redesignação sexual

A tecnologia biológica também ajuda na reconstrução vaginal, especialmente em casos de agenesia vaginal, quando a mulher nasce sem o órgão; ou de encurtamento do canal vaginal, em decorrência de câncer ou radioterapia.

A pele do peixe ajuda a estimular a produção de um tecido vaginal novo através das próprias células da paciente. O procedimento é permanente e também auxilia em cirurgias de redesignação sexual.

Maciel aponta que mais de 300 pacientes já foram operados na cidade de Cali, na Colômbia, através de curativos ou enxertos feitos para revestir o novo canal vaginal.

Usos na medicina veterinária

Além de tratar queimaduras e ferimentos em animais, a pele de tilápia também é usada para tratar problemas na córnea e no crânio de bichos, especialmente gatos e cães. “Temos resultados bastante positivos. Esses estudos agora estão começando em humanos”, conta o presidente do Instituto de Apoio ao Queimado.

As terapias nos animais ocorrem através da matriz dérmica, um produto desenvolvido a partir da extração do colágeno da pele do peixe. Dessa maneira, o material pode ser usado dentro do organismo.

Por que usar a tilápia

Mesmo não sendo uma espécie nativa brasileira, a tilápia é um animal altamente disseminado pelo país, atrás somente das carpas. Isso se deve ao fato de ela ser resistente a temperaturas variadas e se reproduzir com rapidez. No consumo do peixe, grande parte dele, incluindo a pele, não é utilizada. Assim, o material usado para a pesquisa é abundante em vários aspectos.

O fato dele ser um animal de água doce também reduz as chances de transmissão de doenças, em comparação aos animais que vivem na Terra. “Por todas essas razões, ela foi escolhida para ser estudada como curativo biológico temporário”, afirma Maciel.

Pele da tilápia na rede pública

Atualmente, a técnica não está disponível em todos os hospitais da rede pública. Porém, um acordo assinado ao final de 2025 pode alterar o cenário. Na determinação, foi realizada a transferência de tecnologia da pele liofilizada para a empresa Biotec, no estado de São Paulo, através de um processo de oferta pública.

Como consequência, a Biotec será responsável por registrar o produto na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e construir uma fábrica para produzir e comercializar o produto em cadeia nacional e internacional.

“A expectativa é que essa tecnologia, desenvolvida integralmente no Ceará, possa chegar principalmente à rede pública de saúde, beneficiando pacientes que mais necessitam desse tipo de tratamento. Para isso, é importante também o apoio do governo federal, por meio do Ministério da Saúde”, ressalta Maciel.

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